segunda-feira, 22 de março de 2010

Sou

Sou cheio de vazios
Sou meio pervertido
Sou doido varrido

Sou resto de comida no prato
Sou loucura em forma humana
Sou bagaço de laranja

Sou pedaço de nada
Sou conflito eterno
Sou novo caquético

Sou chocalhar de ossos
Sou músculos contraídos
Sou homem perdido

Sou puto da vida
Sou boca de fumo
Sou muito resmungo

Sou rinha de galo
Sou palavra censurada
Sou pedra lascada

Sou boi e vaca
Sou bicho e mato
Sou livre presidiário

Sou carta de despedida
Sou coisa estragada
Sou águas passadas

Sou retrato em preto e branco
Sou jogada de sorte
Sou vida!
Sou morte!

(Jorge Rêgo)

Vida que te quero vida!

Toco a face na terra fria e molhada
Que cheiro de vida!
É pra debaixo dela que eu vou quando morrer
Toco as palmas da mão na terra fria e molhada
Sinto a força da vida!
Penso calma e friamente
Depois que morrer que vida hei de ter?

(Jorge Rêgo)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O mundo é cão

Os homens já têm metástase

Nada mais pode curar-lhes

O mundo é mesmo cão!


E Orfeu tocou a sua lira

Numa ilustre tentativa

De acalmar os corações


Consultaram os oráculos

A sabedoria dos carvalhos

Mas tudo foi em vão

E o mundo é mesmo cão!


Buscaram numa caixa

A esperança que restara

Da desgraça de Epimeteu


Tentaram oferendas

Mil preces e novenas

Correntes de oração

Mas o mundo é mesmo cão!


Vinte virgens para a pura Ártemis

E invocaram a justa Têmis

Clamando por retidão


Apelaram pra mandinga

Bíblia, Torá, Bhagavad Gita

Mas foi tudo mesmo em vão

Pois o mundo é mesmo cão!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Amargos como a bílis

A energia versátil do homem pós-contemporâneo
Torna inadmissíveis conjecturas de quaisquer lábios
Que canse o homem de correr em circulos
Enquanto as formigas em sua incessante labuta carregam seus fardos

(Jorge)

Quando eu me chamar saudade

A morada da alma se esgota com o chrónos
Criação humana pra delinear os fatos
Muitas vezes escapamos sem saber quem somos
Se esvaindo no alvorecer grisalho

Terei um aprazimento indubitável
Ao evadir de uma máquina tão pútrida e sem sentido
Que neste dia não derramem uma lágrima
Nem murmurem melodias fúnebres aos meus ouvidos

(Jorge)

Zózimo, o homem que soube viver ou Zózimo, um homem justo

Zózimo era homem de poucas palavras
Mas fazia valer cada uma delas
Era sempre o que desse na telha
Sorria na fartura, sorria na miséria

Gostava tanto da vida
Que dizia querer chegar aos cento e dez anos
Brincava falando sério
Falava sério brincando

Era um homem que não se escondia num canto
Fazia de cada momento um pedaço inesquecível
Diziam as más línguas que Zózimo não tinha juízo
Queriam mesmo era como Zózimo ter vivido

Gastou seus últimos tostões na quimera
De deixar para os seus filhos um mundo melhor
Pois assim se sentia: pai do mundo
E agora sem Zózimo, o mundo é um mundo pior

Na sua lápide havia poucas palavras
Mas simples como Zózimo, tudo diziam
“Aqui jaz um grande homem,
Que soube viver com alegria”

(Jorge)

Versos de Azaléia (alegria de amar)

Se tudo posso
Em ti repouso
Num suave pouso
Tenho o meu corpo
A se entregar
Durmo sobre teus seios
Será mais um devaneio,
Que me trouxe o luar?

A alvorada me revela
As belezas da primavera
E entre elas, vejo você
Não! Graças a Deus não era um sonho
Acordei em teus braços
E pude enfim perceber
Que são os teus abraços
Que pro resto da vida
Irei de querer...

Sinto o teu cheiro
Tomar-me as entranhas
E é-me extasiante
A sensação de delírio
Quando me inebrio
Com a tua mais bela forma
Áurea, incorpórea, transcendental

Magnífica é a tua doce formosura
E de onde é oriunda,
Tão sublime criatura,
Se não for das mãos de Deus?

Me aceita
Como o teu mais novo aliado
E juro por tudo que me é sagrado
Que não irás se arrepender

(Jorge)