segunda-feira, 22 de março de 2010

Processo inevitável?

Vivo para morrer
Caminho para ficar cansado
Cresço, estudo, trabalho...
Para poder envelhecer
E finalmente sentar numa cadeira de balanço
E dar graças a Deus
Por me deixar existir
E assistir a grande satisfação de uma vida medíocre:
Ver a família e a barriga crescerem...

(Jorge Rêgo)

Poetas desgraçados

Reconheço o júbilo dos poetas malevolentes

Mas quão vis são estes pobres coitados

Possuem eloqüência, distinção, e até mesmo um resto de coerência

Mas não passam de bastardos


É um crime excessivamente estúpido baldar as palavras

E vociferar promessas de um reino encantado

Sabendo que o doce presente da plebe

É demasiadamente desgraçado


(Jorge Rêgo)

Todos desiguais, tão iguais

Os mesmos vermes que comeram Cristo

Buda, Einstein e Mozart

Irão devorar a minha carne quando eu morrer

E então restarão apenas os meus ossos

E alguns finos fios de cabelo

Esse é o destino de todos os cadáveres

Seja o de um gênio ou o de um burro

De um preto, de um branco, de um pobre, ou de um rico

De um assassino sem escrúpulos

De um mártir

Ou até mesmo de um santo

Pois o homem corpo

É bicho que se consome

Depois de morto

Os vermes indistintamente comem


(Jorge Rêgo)

A fineza vazia da anti-plebe

A fineza vazia da anti-plebe
É um primor de beleza
As pérolas enfeitam suas gargantas
Que bradam
Que vociferam
Contra a tida corja de pequenos homens iguais
Todos sujos e reles mortais
Desprovidos da real perfeição

A baixeza mentecapta destes pobres espíritos tresloucados
É derivação da carência de lucidez
Tolos infames de corações inabitáveis!

Os rudes têm corações bem mais bonitos...

(Jorge Rêgo)

Inquieto

Tenho tido muitos pesadelos acordado
Penso em deixar a mente ir embora
E isso é um sinal de que ela ainda não se foi
Pelo menos por completo

Um corpo sem cabeça não tem preocupações
Não precisa de direção
Não possui conflitos
É como um mar calmo
Sem barcos
Sem ondas
Sem náufragos
Sem reviravoltas...

Tenho sido muito calado
Tenho tido muitas vertigens
Tenho permanecido bastante inquieto
Tenho estado bastante ao contrário

Será a inconstância da minha emoção
Associada com o meu pensar diário
Será que morreu uma boa parte do meu coração
Junto com as decepções de uma vida sem sentido

(Jorge Rêgo)

Corações enfermos

Admito! É incurável este mau diário
Insaciável esta vontade à toa
Que corre nas veias das criaturas errantes

Estão infectadas as bombas de vida que batem
Nos leitos de corpos delirantes
O espírito da benignidade partiu para longe

(Jorge Rêgo)

Corja de abutres

Vomito a podridão que está alojada no intrínseco do meu ser
Em cima das máquinas corrompidas
Sacro-putas! Tomem conta das coisas que são do mundo
Pois nunca provarão do manjar de Deus

Meu cuspe venenoso atinge em cheio a face da falsária
E liberto uma grande gargalhada...
Meu contentamento descontente!

O drama da vida é ter medo de viver
E os homens passam suas vidas inteiras se esquivando da morte
O drama da morte é ter medo de sumir
E os homens passam a vida inteira perdidos

Morrer é virar uma curva!

(Jorge Rêgo)